quinta-feira , 29 janeiro 2026
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Produção de leite ganha diretrizes da Embrapa para reduzir emissões e ampliar sequestro de carbono

Novos protocolos da Embrapa estabelecem práticas de baixo carbono na pecuária de leite

Foto: Gisele Rosso/Embrapa

A produção de leite no Brasil acaba de ganhar um conjunto de ferramentas estratégicas para enfrentar um dos maiores desafios do agro contemporâneo: a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE). A Embrapa desenvolveu três protocolos técnicos que atuam diretamente nos principais pontos de geração de emissões da atividade leiteira, ao mesmo tempo em que estimulam o sequestro de carbono no solo.

Os protocolos tratam de boas práticas para a mitigação da emissão de metano dos bovinos; para a redução da emissão de amônia e óxido nitroso no solo; e de manejo de solos para acúmulo de carbono.

Eles integram a publicação lançada pela Embrapa Pecuária Sudeste e são resultado de anos de pesquisa científica aplicada. As diretrizes abordam desde o manejo dos animais até a gestão do solo e do uso de fertilizantes, com foco em eficiência produtiva, sustentabilidade ambiental e viabilidade econômica para o produtor rural.

Segundo estimativas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovaçãocom base em dados de 2022, o setor agropecuário responde por 30,5% das emissões brasileiras de GEE. Do total, 19% são emissões de metano, gás com elevado potencial de aquecimento global. Desse volume, 97% têm origem nos bovinos, sendo 86% do rebanho de corte e 11% da pecuária leiteira.

Diante desse cenário, a pesquisadora Patrícia Perondi Anchão Oliveira, da Embrapa Pecuária Sudeste, destaca que a atividade leiteira já enfrenta desafios produtivos e econômicos relevantes. A agenda climática, segundo ela, passa a integrar a tomada de decisão nas propriedades, especialmente diante de consumidores e mercados cada vez mais atentos à origem dos alimentos e ao impacto ambiental da produção.

Mitigação do metano começa no manejo do rebanho

O primeiro protocolo reúne boas práticas para reduzir a emissão de metano pelos bovinos. Esse gás é liberado majoritariamente durante a digestão dos ruminantes, por meio da eructação, e está diretamente relacionado à eficiência produtiva do animal.

Entre as estratégias recomendadas estão a melhoria dos índices zootécnicos, o ajuste nutricional das dietas, o uso de aditivos, o avanço no manejo das pastagens, a oferta de água de qualidade, o cuidado com a sanidade e a promoção do bem-estar animal. Animais saudáveis ​​e produtivos diluem melhor a emissão de metano por litro de leite produzido.

Estudos conduzidos pela Embrapa mostram, por exemplo, diferenças significativas entre raças. Vacas holandesas puras em pastagens de alta qualidade emitem cerca de 18,4 gramas de metano por litro de leite, enquanto girolandas chegam a 25,3 gramas por litro. A maior produtividade explica essa diferença.

Simulações realizadas com uma calculadora em desenvolvimento pela Embrapa indicaram que a adoção de índices reprodutivos inadequados pode elevar as emissões em até 22% por quilo de leite corrigido para gordura e proteína, reforçando a importância da gestão técnica do rebanho.

Foto: Juliana Sussai/Embrapa

Solo bem manejado reduz perdas e emissões

O segundo protocolo foca na redução das emissões de amônia e óxido nitroso no solo, gases associados ao uso de fertilizantes nitrogenados e dejetos animais. O óxido nitroso tem potencial de aquecimento global quase 300 vezes superior ao dióxido de carbono e pode permanecer na atmosfera por mais de um século.

Entre as práticas recomendadas estão o uso de leguminosas consorciadas com gramíneas, que fixam nitrogênio biologicamente e reduzem a necessidade de fertilizantes químicos. A Embrapa estima que, para cada quilo de fertilizante evitado, deixam de ser emitidos 5,42 quilos de CO₂ apenas no processo de fabricação.

Outras medidas incluem a distribuição mais uniforme dos dejetos animais, a adoção de sistemas de lotação rotativa, o uso de fertilizantes de eficiência aumentada e técnicas que diminuem a volatilização da ureia, como incorporação ao solo e aplicação antes de chuvas ou irrigação.

Sequestro de carbono fortalece a sustentabilidade

O terceiro protocolo trata do manejo do solo para o acúmulo de carbono, elemento central na estratégia de mitigação das mudanças climáticas. Práticas conservacionistas, como plantio direto, adubação verde, recuperação de pastagens, sistemas integrados e uso de bioinsumos, ampliam o estoque de carbono no solo por longos períodos.

Pastagens tropicais bem manejadas têm elevado potencial de sequestro, com acúmulo de carbono em profundidades superiores a um metro. Em sistemas integrados com árvores, o efeito é ainda maior. De acordo com a Embrapa, o crescimento de 52 eucaliptos pode compensar, em um ano, a emissão de uma vaca produzindo 26 quilos de leite por dia.

Para o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sudeste, Alexandre Berndt, o principal entrave para a adoção dessas práticas ainda é o investimento inicial. No entanto, ele ressalta que o aumento da eficiência produtiva e da rentabilidade ao longo do tempo permite novos aportes tecnológicos.

Políticas públicas como o Plano ABC+além de arranjos locais envolvendo cooperativas e indústrias de laticínios, são apontadas como fundamentais para acelerar a transição para uma pecuária leiteira mais sustentável.

Livro sistematiza conhecimento para o produtor

As diretrizes estão reunidas no livro Protocolos de boas práticas para a mitigação de gases do efeito estufa em sistemas de produção de bovinos, lançado em novembro de 2025. A obra apresenta protocolos voltados especialmente a produtores de leite interessados em descarbonizar suas propriedades em condições tropicais.

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