Muito antes de pesquisadores entrarem na floresta para coletar dados, quem já observava
diariamente os sinais da natureza eram os produtores rurais. Em Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo, agricultores familiares têm se tornado aliados da ciência ao registrar a presença de animais, mudanças ambientais e comportamentos da fauna da Mata Atlântica.
A parceria ocorre por meio do Instituto Nacional da Mata Atlântica (Inma), que desenvolve projetos de ciência cidadã envolvendo moradores de propriedades rurais. A iniciativa transforma o conhecimento acumulado por quem vive no campo em informações importantes para pesquisas sobre conservação ambiental.
“A propriedade rural é um laboratório a céu aberto”, resume a pesquisadora Mariane Kaizer, do Inma.
Primatas
Um dos principais exemplos dessa parceria é o projeto “Eu vi um macaco no mato”, coordenado por Mariane Kaizer e Samara Querubini.

Os produtores registram a presença de diferentes espécies de primatas, como bugios, macacos-prego e saguis, anotando horários, quantidade de animais, vocalizações e mudanças de comportamento ao longo dos meses.

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Todos os meses, Samara visita 43 propriedades rurais para recolher os calendários preenchidos pelos agricultores. “Fui muito bem recebida em todas as casas. Os produtores realmente gostam de participar. Alguns até colocam frutas para os macacos chegarem mais perto”, conta a pesquisadora.
As informações ajudam os cientistas a compreender os impactos da febre amarela sobre as populações de primatas, identificar áreas mais preservadas e acompanhar os deslocamentos dos animais entre fragmentos da Mata Atlântica.
Sapos

Lacerda. Foto: Júlio Huber
Quando anoitece, os protagonistas mudam. Em vez dos macacos, entram em cena os anfíbios.
No projeto “Cantoria de Quintal”, coordenado pelo pesquisador João Victor Andrade Lacerda, moradores gravam com o próprio celular o canto dos sapos encontrados próximos às suas casas e propriedades.
Segundo o pesquisador, cada espécie possui uma vocalização característica. “Cada espécie de sapo tem um canto só dela. Com uma gravação simples, o morador já nos ajuda a mapear espécies raras, ameaçadas e até aquelas que ainda nem foram descritas pela ciência.”
Além de ampliar o conhecimento científico, a iniciativa fortalece a percepção dos produtores sobre a importância dos anfíbios para o equilíbrio ambiental, especialmente na conservação da água e no controle natural de insetos.
Beija-flores

Outro projeto desenvolvido pelo Inma utiliza tecnologia para acompanhar os deslocamentos dos beija-flores, aves símbolo de Santa Teresa. Coordenada pelo pesquisador José Eduardo Mantovani, a pesquisa utiliza microchips implantados nas aves.
Sempre que um beija-flor visita um bebedouro equipado com leitores eletrônicos, o sistema registra automaticamente sua passagem. A próxima etapa será ampliar esse monitoramento para residências e propriedades rurais, aproveitando o hábito já existente entre muitos moradores de manter bebedouros para essas aves.
“Alguns produtores têm bebedouros há anos. Eles já percebiam padrões de visitas, sumiços temporários ou comportamentos diferentes entre as espécies. Agora, vamos transformar isso em dados científicos robustos”, afirma Mantovani.
Ciência cidadã
Para a historiadora Aline dos Santos Gonçalves, a participação dos agricultores demonstra que conservação ambiental e produção rural são atividades complementares.
“Agronegócio e biologia caminham juntos. Você usa água, sol, sementes, terra. É impossível produzir sem entender os limites e potenciais desse meio. A natureza tem um teto, e quem vive dela precisa compreender isso para garantir o amanhã.”
Segundo ela, manter solos saudáveis, água de qualidade, florestas preservadas e polinizadores ativos é condição indispensável para a continuidade da produção agrícola. A experiência de Santa Teresa mostra que o produtor rural deixou de ser apenas um observador da natureza para se tornar um parceiro da pesquisa científica.
Ao registrar a presença de um macaco no pomar, gravar o canto de um sapo após a chuva ou acompanhar a visita de um beija-flor ao quintal, agricultores ajudam pesquisadores a produzir conhecimento sobre um dos biomas mais ameaçados do país.
Mais do que gerar dados científicos, a iniciativa valoriza o conhecimento construído ao longo de gerações no campo e reforça o papel estratégico dos produtores rurais na conservação da Mata Atlântica.
Em Santa Teresa, a ciência nasce da união entre pesquisadores e agricultores — uma parceria que mostra que preservar a natureza também é uma forma de fortalecer o futuro da produção rural brasileira.
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