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Bancos avaliam uso de compulsórios; produtor rural pode pagar a conta

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Foto: Agência Brasil/divulgação

Quem acompanha de perto os movimentos do sistema financeiro brasileiro aprende a reconhecer quando um debate aparentemente técnico carrega efeitos muito concretos na economia real. A discussão em curso entre bancos, Febraban e Banco Central do Brasil, sobre a possibilidade de utilizar depósitos compulsórios para reforçar o caixa do Fundo Garantidor de Créditos, é um desses casos.

Não se trata de teoria conspiratória nem de ruído de mercado. Existe lógica técnica, existe precedente e existe urgência após quebras recentes. Mas também existe um efeito colateral que costuma aparecer primeiro longe das mesas de diretoria e mais perto da economia real: o crédito ao pequeno produtor.

É preciso ser direto. O dinheiro em discussão não é sobra de caixa. Estamos falando de depósitos à vista, base histórica do crédito direcionado no Brasil. É dessa fonte que sai boa parte do financiamento do Pronaf, da agricultura familiar e de produtores que não têm acesso a estruturas sofisticadas de financiamento.

Os grandes grupos se ajustam. Têm capital, instrumentos e alternativas. O pequeno, não.

A lógica que incomoda

Tecnicamente, ninguém afirma que recursos do crédito rural serão transferidos, por decreto, ao FGC. Essa leitura é simplista. O ponto real, e mais desconfortável, é que dois destinos passam a pressionar a mesma base de recursos.

De um lado, o crédito rural obrigatório, sustentado por regras rígidas de direcionamento. Do outro, um sistema financeiro pressionado a recompor rapidamente o caixa de um fundo que sustenta a confiança bancária.

Quando essa equação se fecha, o ajuste não acontece por discurso. Ele aparece no dia a dia do crédito: menos prazo, mais exigência, custo maior. Para o pequeno produtor, isso não é detalhe. É limite.

Uma das distorções recorrentes do debate econômico é tratar o agronegócio como um bloco homogêneo. Não é. O crédito que nasce dos depósitos à vista existe para sustentar a base produtiva, não para financiar grandes estruturas já capitalizadas.

Quando o sistema entra em modo defensivo, o efeito não vem em comunicado oficial. Ele surge de forma silenciosa: limites mais estreitos, decisões postergadas, investimentos adiados. Quem acompanha esse mercado de perto reconhece os sinais.

Não se trata de afirmar que o crédito rural será reduzido amanhã. Trata-se de reconhecer o óbvio: quando duas necessidades disputam a mesma fonte de recursos, há competição. E quando há competição, alguém perde espaço.

A recomposição do FGC pode ser necessária para preservar a estabilidade do sistema financeiro. Mas ignorar que essa conta pressiona o crédito produtivo é fechar os olhos para a dinâmica básica do dinheiro.

Se o Banco Central do Brasil optar por qualquer engenharia envolvendo compulsórios, precisa assumir uma responsabilidade clara: blindar o crédito rural voltado ao pequeno produtor. Não no discurso. No desenho regulatório.

Usar a liquidez do sistema para cobrir falhas bancárias pode ser inevitável em momentos extremos. Fazer isso sem debate público e sem proteção explícita ao crédito produtivo é empurrar o custo para quem menos tem margem para absorvê-lo.

No Brasil, sempre que o sistema financeiro aperta o cinto, o campo sente primeiro. E, dentro do campo, o pequeno produtor sente mais forte.

Ignorar essa lógica não é neutralidade técnica. É uma escolha.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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